Consciência negra: representatividade no esporte cresce, mas racismo ainda fere

Evandro foi campeão mundial em 2017 ao lado de André Stein (Foto: Divulgação/FIVB)

As histórias são mais raras do que no passado, mas ainda machucam. Se a representatividade dos negros cresceu nas delegações olímpicas e paralímpicas do Brasil nos últimos anos, o racismo infelizmente não abandonou o cotidiano destes atletas. Seja no ambiente esportivo ou fora dele, de forma velada ou explícita, o preconceito ainda se faz presente.

Quando se observa as posições de poder do esporte nacional, o cenário ainda é discrepante. Nenhum dos 33 presidentes das Confederações Olímpicas Brasileiras é negro – Gerli Santos foi o mandatário da Confederação Brasileira de Esgrima (CBE) por quatro anos, mas não segue mais no cargo. Entre os principais dirigentes do Comitê Olímpico do Brasil, todos são brancos.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) afirma que mais da metade da população brasileira se declara negra ou parda no censo. Mas nem o COB nem o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) possuem um levantamento preciso sobre quantos eram os atletas negros a competirem na Rio 2016. Como esta declaração de etnia, pelos conceitos do IBGE, é pessoal e voluntária, não podemos precisar a expressão total da participação negra nas delegações nacionais.

No dia da Consciência Negra, feriado estabelecido na data que se atribui à morte de Zumbi dos Palmares, o GloboEsporte.com procurou atletas de diversas modalidades para relatarem os desafios que a cor da pele os fez enfrentar em algum momento de suas vidas.

O tema é tão delicado que muitos grandes nomes do esporte nacional, incluindo campeões olímpicos e mundiais, preferiram manter o silêncio e não se expor. Outros relembraram momentos dolorosos, que até hoje remoem na memória. Mas consideraram que falar e externar tais lembranças seria um ato importante na luta pela igualdade racial. Confira alguns destes depoimentos.

Evandro Gonçalves – campeão mundial de vôlei de praia: “Uma vez fui ver um apartamento em Copacabana para morar e falaram que eu não teria condições de pagar. Depois a pessoa soube quem eu era e o que fazia e voltou atrás, mas eu tinha perdido o interesse. Tenho pena dessas pessoas.”

Ygor Coelho – campeão pan-americano de badminton: “Fui comprar um tíquete de comida no restaurante e uma senhora virou pra mim e disse: “Nossa, que susto! Achei que era um assalto”.

Josi Santos – ex-ginasta e esquiadora: “Na ginástica sofri preconceito de dirigentes. Muitas vezes me tiraram de competições por causa da pele. Isso praticamente me fez desistir da seleção brasileira.”

João Gomes – vice-campeão mundial de natação: “Sempre aprendi que você, negro, vai ter que fazer o dobro, não importa o que as pessoas vão falar. Por ser negro tem que fazer duas vezes mais para mostrar serviço.”

Globo Esporte
12:40:00

 

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